Tuesday, June 5, 2007

quote from jeff


jeff koons:


"Abstraction and luxury are the guard dogs of the upper class." perfeito!


Mas não vejo nada de terrível nem na abstracção nem na luxuria. As elites utilizam os cães de guarda como defesa que os espelha. A forma como as elites legitimam a abstracção é hipócrita, uma vez que esta serve para dissimular a luxuria e fingir que salva as elites, uma vez que a abstracção é a «representação» da identidade «pura». A tradição da arte abstracta teve que esperar por Hegel, e a sua ciência da lógica para se começar a introduzir enquanto «modernidade» da arte. A abstracção é a habitabilidade do «fim», e a «arte conceptual» é a aplicação de práticas de arte abstracta à linguagem e a matilha de ciências «moles» que a segue. Perfiro, regra geral as ciências duras.

Wednesday, May 2, 2007

auto, bio e grafia


a minha «obra» não é autobiográfica , mas é «auto», é «bio» e é «gráfica» - nela se cruza uma polisubjectividade com os avatares de uma serialidade que expropria as «subjectivices», como se Fernando Pessoa se cruzasse com Cage ou Soll Lewitt. Falta-lhe a «interiorisse», mas não lhe falta o pulsional - um pulsional mais «infantil» (e consequentemente «polimorfico-perverso») do que motivado por uma vontade de desentranhar obscuras zonas traumáticas


gosto que as coisas saiam cá para fora, e de retomar séries alheias como se fosse uma máquina «demasiado humana» de retraduzir paisagens interiores/exteriores


provávelmente é na abstracção que sou mais intímo, sexual e concreto

«crianção»


Alguns posts atrás os dedos fugiram-me no sentido de um «lapsus dactilugraficus» (desculpem-me o macarronismo) - em vez de criação, escrevi crianção - neologismo que se destaca da noção pejorativa de criancinha - crianção é o que na criança e na criação aspira a ser grande.

porretanos


Não tarda entraremos nas guerrilhas comichosas da «querela dos universais», não muito distintas de outras arabes e hindús. A posição que tenho propensão a defender é a de um «sensualismo» que ao mesmo tempo é radicalmente nominalista (dentro de uma tradição que vai directamente do sofista Antifonte a Alberto Caeiro... e talvez a Nelson Goodman (ou nem por isso?)), imanentista (materialista ou pan-ateísta? ou nem uma coisa nem outra?), e subreticiamente «mágico» (pois acredito na eficácia das formas, ora bolas!). Não sei se há atribulada contradição entre estes termos e teorias. Julgo encontrar ecos de uma estética do encantamento (que me é cara) em Gorgias e Abhinavagupta, em que a predisposição para nos deixarmos embalar pela ilusão é sinal de um prazer divino (no que o humano pode ter desse adjectivo).


Há no entanto argumentos curiosos quanto à eficácia das «formas» (ou dos arquétipos - uma tradição pitagórica-platónica-tântrica que é confirmada pelas experiências de Tinberg). Por exemplo, Gilberto de Poitiers (Gilbertus Porretanus) faz, a partir de Boécio a distinção entre o quod est (o que é) e o quo est, o «porque» uma coisa é assim ou assado. Transcrevo Jolivet: «O quo est é também defenido como «poder de fazer» : isso leva a considerar que a forma é eficaz. Gilbert, seguindo neste assunto Bernard de Chartres, chama «formas originárias» (formae nativae) às formas que residem nas coisas criadas: «sensivel na coisa sensível, insensível quando é concebida pelo espirito, singular em cada coisa tomada à parte, universal em todas» (João de Salisburia).»


O que é incontornável é a eficácia física, sensual, singular, de determinadas formas «mais abstractas», assim como de determinados sons, relativamente simples. A questão não é entronar a forma eficaz, nem ser um devoto de números de ouro e semelhantes refúgios de místicos de opereta. O que interessa aqui é uma prática que considere como incontornável o que Jolivet designa ao dizer que a forma é eficaz, isto é, que as formas mais generalistas são mágicas, no sentido de produzirem determinados efeitos - o que é o mesmo que dizer que as imagens são poderosas. Essa eficácia é a porta do «encantamento». E é aí que entra em liça a estética indiana dos rasa, e dos raga e do bhava. A ver vamos.

Monday, April 23, 2007

são as «essencias» metamórficas


Qualquer leitor de Platão ou de Aristóteles constata que as categorizações e os dispositivos conceptuais que usam mudam de livro para livro, e no caso de Platão há inclusive uma teatralidade que acompanha o leitor dentro do mesmo livro. Podemos supor que as «soluções» apresentadas pelos principais personagens dos diálogos podem ter um refutador pelo mesmo personagem que as afirma, ou que as nuances se vão aguçando. A velha noção de filosofia implica essa mesma próximidade metamórfica e um temível criticismo. Nos gregos é o prazer de refutação, de discussão e de conversação que predomina. Nestes termos as essências são metamórficas. O caso da «mesa» é o de algo que não tem uma existência intemporal, uma vez que a sua criação é recente. No mesmo sentido, qualquer coisa que exista neste mundo não terá existido a determinada altura. Falar da essencia de qualquer coisa é falar do devir desse tipo de coisas conjugado com o devir do pensamento que a pensa, manipulado (ou manipulando) em quem experimenta tais pensamentos.


Dir-se-ia que a pintura é uma singularidade enquanto prática (se excluirmos os múltiplos e uma hipotética refutação wharholiana ou as teorias de Baudrillard) e resultado - mas a pintura namora essa «ficção» de essencias metamórficas, e fá-lo mal aceita o termo arte como categoria limitativa (ou aumentativa) de um fluxo de possibilidades. As artes ditas plásticas são mais nominalistas que a música ou a literatura, porque o som namora a redução das suas frequências a algo codificável e combinável. Quanto à literatura, toda a palavra supõe a admissão de algo partilhável e generalizável. Por isso o literário acaba canibalizado no filosófico, enquanto o artístico, e sobretudo o pictórico, fica limitado à exibição de singularidades extremas (mesmo quando enunciam, através da arte dita abstracta, sublimes generalidades), embora estas sejam «replicáveis» (até à nausea) através da reprodução mecânica ou cibernética. Esta reprodução não desfigura a singularidade senão como uma falsa aura que duplica, e de que maneira, a aura original.

Wednesday, April 4, 2007

geometria e kitsch


O kitsch é vulgarização - há algo de nojento e de má experiência. O misticismo axaropado e a acefalia são seus contribuintes. Degradês grotescos! O absoluto em edição disgusting! É tudo uma questão de higiene mental. A geometria seria um bom antidoto para o kitsch, mas há quem consiga pervertê-la com brilhos inadequados. Os misticismos são frequentes acompanhantes do kitsch. O kistch relacha-nos, conforta-nos, estupidifica-nos e torna-nos mais domesticáveis. O kitsch é frequentemente um exagero tecnológico, é a espuma (ou os suburbios) das modernidades.


O bom gosto é inibidor? Em parte, se o cultivarmos como um dogma. Pelo contrário o bom gosto é algo mais natural, mais institivo, mais antigo, mais simples. Conservador? De modo nenhum - é o que põe o mais antigo no mais actual, sem reverências.


Bom gosto - simples e complexo.

Kitsch - complicado, confuso, rebuscado.

Tuesday, March 27, 2007

frankye goes sousa


sempre amei as riscas paralelas do frank stella - assim como as linhas subtis do ângelo de sousa - ambos têm algo de africano que tentei sintetizar num desenhito da altura das minhas descobertas dos trigramas , como as três direcções que nos cochicham num plano